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Um uivo no interior da criança - O “Ser Criança” e o Poder da Inquietação

Subia o monte Olimpo, ribanceira lá do quintal

Mergulhava até Netuno no oceano abissal

São Jorge ia prá lua lutar contra o dragão

São Jorge quase morria, mas eu lhe dava a mão

E voltava trazendo a moça com quem ia me casar

Era minha professora que roubei do Rei Lear


A criança é o ser que mais se respeita. A mente ou o desejo tendem a nos fazer muitos pedidos, chorar, gritar, correr, balançar o corpo, dançar, rir, pular. Isso, pelo menos ao meu ver, é um movimento constante, mas é também irônico como essas coisas são vinculadas à figura das crianças. Por isso, repito, a criança é o ser que mais se respeita, ela se permite aos pedidos. É como se no momento de conhecimento de si, do corpo e da mente, ela também de alguma forma se busca nas coisas e nos espaços. Movimento de se integrar ou tentar entender e construir um mundo a partir disso, então a imaginação se torna uma potência. Uma força. Quase que um poder expresso de maneira extremamente fantástica. São palavras que compõem a criança e acabam tornando elas igualmente um ser fantástico, principalmente através do olhar adulto. Ao se respeitar, ceder às vontades ou apenas ser, a criança é também por si só uma aleatoriedade. Talvez nem ela mesma tenha noção do próximo passo. Não há planejamento, quase que uma fuga do tempo. O presente é o que existe. Esse espírito indeterminado no mundo sistemático, físico e material do adulto é uma agressão, por isso ela precisa ser contida. Uma flor sendo podada sem poder florescer. Essa agressão transgressiva por outro lado também acentua o fantástico do ser criança. Um fantástico poeticamente fantasioso. Observar uma criança é como ver uma obra sem rumos premeditados. Um roteiro livre e orgânico em essência, sempre te surpreende e se surpreendendo. Na carta da ciência é difícil encontrar padrão do próximo passo da criança, por isso ser objeto não está em questão. Até formalmente ela não tem parâmetros, a cada dia é um ser. Anatomicamente falando há mudanças sem precedentes, e é lindo contemplar a criança laborando o seu próprio ser e se impactando.

A natureza do ser criança é de certa forma uma fuga. É controverso por existência, e de novo, é uma potência ao mesmo tempo. É potência não pela posse da criança, mas sim por que é algo fora do controle de todas as partes. Funciona como uma força, algo que é naturalmente regido pelo universo - é da natureza e é natural. Mas por outro lado existe o “adultismo”, que é o primeiro passo de um sistema de controle. Normas. Etiqueta. O que ou não fazer. Olha o que você está fazendo, parece criança? A preferência de exemplo é que se torne adulto. Assim que o possível florescimento do “ser criança” começa a aparecer, ela é quase que imediatamente podada de várias formas diferentes. É de um desejo - nesse caso capital -, de tomar posse do que é natureza ou natural por parte do homem adulto. Tentar de alguma forma reger o que nos rege. Tornar “objeto” o natural e destruí-lo. É inegavelmente também uma vontade inversa. É possível  considerar uma outra força ou uma outra potência contrária, nesse caso ao “ser criança” e que se expressa no destruir para moldar ao bel-prazer. O descontrole ou a desordem incomoda e é preciso ser freada, amarrada e colada nos trilhos. Em meio a natureza e tantos caminhos que ela oferece, o trem deve ser obrigado a passar por um único trilho. Uma única linha de pensar. Um unido jeito ser. 

Mas é importante de questionar. Apesar da existência do “adultismo” se pressupõe também a existência da outra - do ser criança. Não só isso, mas como isso é um cabo de guerra constante mais equilibrado do que parece. Mesmo que se tente podar a árvore para que ela cresça da maneira mais desejável, está em sua essência produzir desvios, aleatoriedade, imprevisão, desordem e unicidade. Ela por si só possui uma autonomia. É da natureza dela. Resgatando, o “ser criança” é natural. Imparável. Possível de frear, mas incessante. Separados aqui dentro das caixas “ser criança” e “adultismo”, porém, é uma mistura. Por mais que se tente controlar, há sempre uma necessidade do ser de ir de encontro com a potência em “ser criança”, principalmente o adulto. E essa necessidade agem como algo coletivo. Nos alegramos quando encontramos espaços que permitam a existência dessa potência. Espaços esses existentes ainda mais fortes no outro. Perdão pela redundância, mas a potência é ainda mais potencializada. Além de tudo, somos coletivo. Estamos sempre inquietos. Em um certo sentido, com vontade de ir contra a maré. Em um movimento de desconforto, mas nos renderá muitos frutos, que seria o manifesto da liberdade. Da essência humana.

Rousseau parecia saber bem disso. Ele se apresenta como um ser em contradição. Parece estar muito imbuído nesse cabo de forças. É um dos pensadores mais importantes do pensamento ocidental. Contratualista - e isso é importante. Conta-se que abandonou seus filhos com a justificativa de negar-se enquanto instituição responsável por eles. Porém, é ele também que vai teorizar contra a maré em favor da criança. Vai atribuir notabilidade para as fases da vida e começar a tecer a natureza humana com base na criança. Em meio a tantas controvérsias presentes no pensamento, principalmente Europeu, do século XVIII iluminista. Rousseau vai buscar valorizar o ser humano através da edificação do “ser criança”. Acima de tudo, também era iluminista. O antigo regime já não cabia mais. Estava em seu Contrato Social construir um homem humanizado, questionador, que tivesse vontade e que isso fosse cultivado desde a base do ser. É acima de tudo também, social, pois se necessita enxergar no outro um limite do fazer. O Humanismo vai permitir às outras gerações a expressão de si. Inquietação. Aprender a se rebelar contra os pais, inclusive os que abandonam. Sempre criticar atos, independente de onde eles venham.

Philippe Ariés se encontra em um ambiente semelhante, porém, mais contemporâneo. De maneira muito curiosa, era ligado às monarquias e ao Antigo Regime. Produz para o campo historiográfico e acadêmico, uma atenção para a criança do passado para construir a criança do século XX, algo muito inovador e anti maré, ainda que sob um olhar mais excludente. É interessante pensar aqui. Nas mãos da ordem e da normalidade sistêmica, futuramente o trabalho de Ariés poderia se tornar quase um desserviço. Mas, e resgatando Rousseau e seu humanismo, houveram críticas e outros pensadores que souberam tirar bons frutos e produzir outros tão importantes quanto. É uma natureza que nos permite crescer de várias formas na tentativa de criar mais espaços férteis para que a vontade/potência presente no “ser criança” se edifique. Seja cultivado. Proliferado. E nesse caso, abrangente.

Isso é cultivar um ato filosófico de pensar. Indagar e se expressar a fim de dialogar. Vemos no outro um ser com questões de potência/vontade pulsantes. Na busca do contato com outras “crianças” também buscamos formas diversas de nos expressar nesse processo de “conversa”. A Arte me apresenta como uma das incontáveis formas. É um espaço muito permitido de transgressão da ordem, ainda que com ressalvas. Mas em muitos casos, é uma comunicação que tenta no sensível se conectar com o outro de uma maneira muito direta. O Cinema possui capacidade magistral nesse sentido - A que mais costumo me aproximar e apreciar. É um ataque sensorial poderoso, pois ao mesmo tempo, apesar de ser uma mensagem, as artes ali presente são muitas. Um espaço de intersecção que via a mão do interpretador, ganha outras tantas camadas. Há ali uma tentativa de cultivar no outro a sua própria potencialidade do “ser criança”. Transmitir e expandir a sua inquietação. Fazer um convite para conhecer o “ser”.

O documentário Ser e Ter, ou melhor, o diretor Nicolas Philibert, nos convida para conhecer o seu olhar sobre a educação através de uma escola no interior da França. Nessa obra, a lente de Philibert parece ter um raio X com a capacidade de enxergar o “ser criança” nos alunos e no professor Georges Lopez. Apesar de ser um documentário, a câmera de Philibert quase não se movimenta de maneira solta. Em alguns momentos não há corte. É como se ele nos dissesse para observar com cuidado cada momento. Observe. Sinta. Relembre. Conecte-se. Reflita. É uma linguagem  muito dotada de paciência. Em meio a toda aleatoriedade que pode ser uma criança, o longa nos pede calma e serenidade. Não porque queremos puxar as rédeas da situação, mas sim pois se trata de nos educar sobre a forma de cultivar o “ser”. Acho interessante como o documentarista se coloca em meio a esse diálogo de maneira mais direta. Ele não apenas filma e expõe, mas também participa. Através do diálogo com o Georges, ele busca compreender quem é o professor. “Vamos olhar para esse professor e entender como o seu ser criança está aqui presente?”. Ele abre essa pergunta até mesmo para o espaço, pois há uma maneira contemplativa de olhar para o mundo. A trilha sonora é quase inexistente. Ele deixa que a natureza fale e também se comunique. 

A natureza e o ser funcionam em unicidade, Philbert parece estar muito interessado nisso. A modernidade é uma realidade, não é possível voltarmos atrás, é possível pensar na melhor forma de conviver. E assim como um ambiente orgânico, o longa possui suas contrariedades, desde o professor até o sistema escolar que os prepara para o mundo do trabalho. Mas é esse mesmo professor que vai também ter cuidado com o cultivo do “ser criança” de maneira pouco convencional para vários padrões escolares. A conjuntura da turma com poucos alunos e uma certa infraestrutura nos diz “lide com pouco”. O longa é de 2004 e 20 anos depois a sua existência e potencialidade só aumentaram. Um aviso para nos atentar ao aceleramento das coisas, em específico com as crianças. É uma carta muito bem escrita. A mensagem é o exemplo da escola. A forma é a Arte. O Cinema. 

É relevante lembrar sobre quem escreve esse texto. Busco sempre que possível me manter criança em vários sentidos. Eu costumo gostar de atender aos chamados do “ser criança”, mesmo que eu não soubesse conceituar através de Rousseau por exemplo. Ainda assim, conseguia sentir. As temáticas voltadas para a infância ou a criança de um modo geral sempre me fascinaram muito. Sinto que é a tal potência emanando em mim. O interesse pela disciplina veio dessa vontade. Olhar para o meu interior e tentar me conectar melhor comigo mesmo e sobre a minha concepção. Atualmente trabalhando estagiando em uma escola, vai completar 2 anos esse ano. A faixa dos alunos que costumo lidar é do Fundamental I. Por fazer História, nunca pensei que fosse me aproximar do Fundamental I assim. Mas é a aleatoriedade agindo sobre. E busquei muito tirar bons frutos, apesar do cansaço. Compreendi que depois de todo esse tempo, eu pude me conectar melhor com a minha criança interior. É muito gratificante. Eu tento também enxergar e conservar essa potência nos alunos, é de fato um trabalho mútuo, contaminante de maneira positiva, ainda mais quando penso na minha formação e no meu futuro trabalho - eu como agente que edifica e cultiva como diria Rousseau. Vejo como ato político o cultivo da essência da criança. É importante que nós continuemos a nos indagar, expressar e ir contra a maré mesmo. Que a sensação de inquietação transborde a fim de transformar. 


Cena do filme Crianças Lobo (no original Okami Kodomo no Ame To Yuki)  de 2012, escrito e dirigido por Mamoru Hosoda.

Outro interesse meu na disciplina é de fato o Cinema. Desde que me entendo por gente/criança/ser gosto de filmes, principalmente animações, que curiosamente é erroneamente ligado de maneira pejorativa ao infantil -  tratam como se fosse uma demérito. Um Cinema que não merece ser levado a sério. Aproveitando essa revolta com o descaso gostaria de comentar e indicar ou fazer um convite para conhecer o diretor japonês Mamoru Hosoda, mais especificamente seu filme Crianças Lobo. É uma obra que também busca constantemente nos apresentar o “ser criança”, porém evidenciando ainda o fantástico. A discussão sobre a natureza do ser e sua socialização também está presente. Nossa criança interior é convidada para fazer parte de uma família. A brincar. O traço de Hosoda é fino e leve. É como se tivesse nada entre o ser e a natureza - no caso os espaços. Eu acho que ele é perfeito para pensar que existem várias infâncias, e que cada um tem seu processo, assim como se cultiva e se floresce em tempos diferentes. Eu por exemplo cresci em uma vila muito pequena, mas com muita presença de vegetação, então no filme de Hosoda eu me conecto à minha criança. Ao meu lobo. Com o meu ser em completude. 

A música que citei no início vai também dialogar com tudo isso. A segunda estrofe é excelente para exemplificar um dos aspectos que mais me agrada e chama a atenção no “ser criança”, muito no sentido de expressar. A fabulação ou o poder da imaginação no lúdico. Na canção, Xangai canta uma aventura repleta de seres fantásticos mitológicos até referências a Shakespeare, intercalando com o espaço real - como é o caso do “quintal". Na minha concepção, é uma carta a potencialidade imaginativa presente na criança. Xangai faz uma epopeia musical. Também nos faz imaginar. Também nos potencializa.  E é isso que quero buscar enquanto professor. Humano. Ser. 


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