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Deixe-me dançar como o rio

“Desde o dia em que eu te reencontrei
Me lembrei daquele lindo lugar
Que na minha infância era especial para mim
Quero saber se comigo você quer vir dançar
Se me der a mão, eu te levarei
Por um caminho cheio de sombras e de luz”



O céu e a terra. O sagrado e o profano. A mente e o corpo. O novo e o velho. O fantasioso e o real. A criança e o adulto. Separar as coisas parece ser a maneira mais fácil de lidar com o mundo. Ser mais objetivo. Técnico. Direto. Dividido. Encaixotado. Formal. Preso. Como se tudo precisasse ser colocado em uma gaveta de documentos e entregue da maneira mais correta e palpável possível. Tem que ser exato. Tem que fazer sentido. É preciso que seja real de imediato.

É do encontro entre dois seres que uma criança é gestada. É antes de tudo um ato de união. Ao nascer existe a necessidade biológica e orgânica de separação física do corpo da mãe. É por uma necessidade de conexão. Rompe-se com a mãe 
para que se conecte ao mundo. É preciso interagir. É ruptura
Mas é também uma continuidade. Como se na nascente de um novo rio fosse necessário deixar fluir correr cair escavar mudar de direção. Com calma, paciência. Respeito. Liberdade. Deixe-o abraçar a terra. Deixe-o bater em pedras. Deixe-o sentir. Deixe-o emanar. Entrar em contato. Conectar.
Desconectar. Conectar novamente. 
e desconectar novamente! e conectar novamente…Em fluxo como se tudo fizesse parte e não ao mesmo tempo. Não é só nascente. Não é só afluente. Não é só o leito. Tão pouco somente a foz. Ele é o todo e tudo que toca.

É bom avisar. É aleatório e difícil de decifrar. Bom que deixe-o seguir seu próprio caminho. Conhecer ao seu modo. Criar sua própria linguagem. Destruir e construir. Ser destruído e construído. Dançar como dita o ritmo e ditar como diz o seu ritmo. Ditar como diz o seu vocabulário. Ele é o todo e tudo que toca.

Ao entrar em contato com o outro. Seja ele pedra. Animal. Elemento. Folha. Gente. Transforma-se em pedra animal elemento folha gente. Às vezes tudo junto. Transpassa. Transparece. Difícil saber o que é e o que está se tornando. Muda a forma. Torna-se qualquer coisa. Algo inimaginável. Além do que se pode pensar. Fantasioso. Fantástico!




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