Consideradas uma das mais belíssimas adaptações do cinema, o filme dinamarquês O Banquete de Babette (nome original: Babettes gæstebud), dirigido por Gabriel Axel e co-escrito por ele e pela escritora Karen Blixen também responsável pelo livro que serve como material base para a elaboração do projeto, é muito lembrado por ter sido o primeiro filme de seu país a conquistar o prêmio mais prestigiado da sétima arte - o Oscar. Ainda sim, ganhar o Oscar de Melhor filme estrangeiro no ano de 1978 foi somente a cereja do bolo dentre os vários prêmios que o longa havia ganhado em diversas categorias em outros festivais ao redor do mundo, principalmente no BAFTA. Ou seja, dentro da academia a recepção da obra é exímia, recriando ou popularizando ali um sub gênero de filme gastronômico, e é exatamente nesse ponto de discussão em que a obra vai ser mais lembrada, principalmente no que diz respeito a essa resenha crítica. O longa parece ganhar mais seu espaço entre os amantes da arte do cozinhar do que entre os amantes das câmeras. Assim, através dessa perspectiva, cabe o debate das questões que o filme levanta durante sua rodagem, principalmente no âmbito da culinária e da sua potência.
Em primeiro lugar, é importante traçar o enredo que cerca a obra para assim então dissertamos melhor sobre ele. Desse modo, entre os anos finais do século XIX, o filme nos apresenta um pequeno vilarejo na remota costa oeste da Jutlândia na Dinamarca, em que essa aldeia possui fortes vínculos com a igreja luterana e que perpassa por todo seu escopo social cultural. Nesse sentido, o longa vai tomar como foco, a princípio, a história de duas irmãs, Martine, interpretada pela Birgitte Federspiel, e Filippa, interpretada pela Bodil Kjer, onde elas nascem e crescem nesse local, sendo educadas por seu pai, um pastor, que de certa forma contribui para que elas duas não se desvinculem da região, principalmente através de questões amorosas. Entretanto, o filme, principalmente em sua primeira metade, trabalha muito com idas e vindas entre o passado e o presente das personagens. E é nesse presente em que Babette (interpretada por Stéphane Audran) aparece em uma noite tempestuosa, como quem anuncia um balançar de estruturas, um lavar dos corpos ali presente com a forte chuva, ainda que por dentro, no mais simples ato de se alimentar.
Babette então é um elemento muito "assincrônico" naquele contexto, entretanto, vinda de uma conjuntura muito lamentável como a dela, onde havia perdido tudo, não só a ligação com o seu local mas também com a sua família, daí que ela não via escolha a não ser aceitar de bom grado o refúgio e o trabalho. Porém, para muito além disso, ela percebe que esse refúgio pode ser a salvação de sua alma e da sua humanidade em conjunto com a salvação também do próprio vilarejo, ainda mais pensando no sentido de vitalidade.
O filme em sua 1 hora e 47 minutos de rodagem, adota uma narrativa mais lenta, principalmente em sua primeira metade que antecede ao grande evento do jantar preparado por Babette. Essa escolha não parece apenas pirotecnia, mas busca expressar como a aldeia parece engessada. Ou dado a escolha das idades dos personagens, como o vilarejo envelheceu em torno de uma só ideia, sem fuga até mesmo para o expressar do ser, o que em alguns momentos do filme mostra como isso vai empilhando conflitos entre os cidadãos. Babette, apesar de aparentar não ser tão jovem, ainda sim é muito nova que todos os outros, senão mais nova, muito mais “cheia de vivacidade”. O próprio personagem responsável pela mercadoria da região também se apresenta mais novo perante os outros do vilarejo, como se ele tivesse um respiro de outros locais. Ainda sobre a primeira metade do filme, quando ele visita o passado das irmãs, em que ali as duas cortejadas por homens que trazem a ideia de se deslocar da região por conta do casamento, são afastados pela figura do pai. Além do cortejo, um deles coloca em questão como uma delas canta de maneira esplendida, e que isso abre para ela uma porta para o mundo, pois é ali que ela se entrega.
Porém, todo esse contexto vai mudando, Babette após ganhar uma pequena fortuna provinda de bilhetes de loterias da França, resolveu proporcionar um jantar na comemoração de 100 anos de fundação da comunidade e seu fundador. A ideia é que aqui o diretor trabalha muito bem com certas miudezas, onde o tom narrativo mais lento coloca como ele busca construir bem um clímax orquestrado. O jantar, simbolicamente, está sendo feito no momento mais radical possível do que fundou aquela aldeia, por conta disso, uma das irmãs tem um sonho em que Babette tem ligações com satã, e que ela seria uma bruxa querendo acabar com todos, assim, todos eles traçam um plano secreto de não demonstrar emoções ao experimentar o jantar preparado por ela (Babette). Porém, eles não sabiam também que Babette havia gasto todo o seu dinheiro para preparar o evento, ou seja, ela se doou de corpo e alma para aquela comunidade. Nesse momento, o filme vai mergulhar em um momento de tensão entre esses dois extremos: Babette sujeita a gastar tudo que tem e a comunidade sujeita a negar tudo que vier. Dentro dessa perspectiva é que a parte culinária ganha espaço, Babette é uma talentosa cozinheira - foco na palavra talento - e por isso o jantar não é só para os convidados, mas também para ela e para o seu próprio bem. Cozinhar é sua arte e é o que ela tem de melhor para oferecer a todos ali presentes. A presença de um dos antigos pretendentes de uma das irmãs está no jantar, e ele em contrapartida, está totalmente aberto ao banquete de Babette, ao seu talento e sua arte. Então além dos pratos incríveis, esse personagem serve para abrir um espaço entre os aldeões, para eles sentirem como o jantar era um dádiva e não uma maldição.
É a partir desse momento que os personagens ali começam a se conectar novamente uns com os outros. O romance antes perdido, volta a se acender - simbolicamente em uma vela no filme -, e a arte de cantar de uma das irmãs tem espaços para serem ouvidas novamente, pois ela se entrega à comunidade com tudo o que tem, assim como Babette. A vida naquele espaço volta a renascer, o novo - e de novo simbolicamente o responsável por ser garçom no jantar, ou seja, servir os velhos é um primo de Babette adolescente, ali a juventude sendo servida, juventude essa que é atrelada ao estar aberto às coisas novas. -, através do alimentar ou de sua arte, Babette muda a maneira como todos eles ali se relacionam uns com os outros e com a vida.
Filme disponível em: Google Play e Youtube para alugar.
Livro citado: A Festa de Babette - Karen Blixen
Tauan Rodrigues Guimarães



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