Crianças brincam, assim como pássaros cantam, crianças brincam, é natural, crianças brincam porque são crianças. Pedro era uma criança e por isso brincava, de muita coisa: Jogava futebol, brincava de esconde esconde, pique bandeira, dirigia o carrinho de rolimã dos seus irmãos mais velhos que tinha uma das rodas meio torta e fazia todo o corpo de Pedro tremer.
Porém, o que Pedro mais gostava de fazer era criar universos inteiros na sua cabeça, além do real, se posiciona no meio do campo de futebol em um dia de tempestade e se tornava um senhor do tempo que controlava os ventos e as chuvas com o movimento de seus braços, nos corredores da escola, se tornava um fugitivo intergaláctico dentro de uma nave espacial. Pedro era mágico, assim como toda criança é. Ele olhava para além do que estava lá, ele olhava para o que poderia ser, criava a partir de pouco, era um cientista, um alquimista, tudo isso sem nem tentar ser.
Um dia ele foi um cavaleiro, como nos filmes, sua armadura prateada com detalhes dourados reluzia sob o sol escaldante que iluminava as altas pradarias do norte, sua capa roxa dançava conduzida pelo vento enquanto galopava rumo ao perigo. Chegara então em seu destino, seus olhos se mantinham fixos na escuridão avassaladora da entrada de uma caverna, nenhuma luz externa parecia ter coragem de entrar naquele território proibido. O sol já sumira e dera espaço para uma noite nebulosa como nenhuma outra, nada existia ali, apenas o herói e o seu desafio, o desconhecido que se arrastava pela caverna adentro. Um som discreto, porém, penetrante interrompeu o silêncio eterno que se dava, algo se aproximava, o cavalheiro puxou sua espada com um som de corte que convidava o inimigo para uma última dança mortal, empunhando-a com as duas mãos e se colocando em posição de batalha, se pôs a apreciar o prenúncio do fim a sua jornada que se daria de uma forma ou de outra. Pequenos feixes de luz se materializavam no ar negro da caverna, cada vez maiores, a luz vermelha alaranjada refletia na ponta da espada que permanecia imóvel em direção a caverna, o cavaleiro pensava em hesitar, mas a sede pela glória era maior que qualquer lampejo de medo. Lentamente, a caverna, antes negra como a noite, ganhava novas cores, as centelhas de fogo refletiam no que pareciam ser pequenas esmeraldas brilhando juntas em um movimento harmônico, gradativamente as cores tomaram uma forma macabra, algo horrível demais para descrever para aqueles não são valentes o suficiente para olhá-la nos olhos, olhos esses vermelhos como sangue que agora penetravam a alma do herói. Era chegada a hora, quando de repente, Pedro olhou para suas mãos, não havia uma espada ali, mas apenas um galho seco de uma árvore qualquer, não havia uma caverna com um mal ancestral prestes a consumi-lo, mas apenas o gramado da casa da dona Cláudia que morava na rua de baixo. As pessoas passavam pela rua e olhavam Pedro com curiosidade, e, pela primeira vez, se sentiu visto, se sentiu envergonhado de certa forma, não sabia mais ser um herói. Encolheu os braços em volta de si e foi para casa sem dizer nada, o monstro da caverna vencera.
Pedro brincou com seus amigos outras vezes, onde esses tinham poderes e lutavam contra o mal, mas Pedro não tinha mais poder algum, não era mais um herói, ou pelo menos não sabia ser, apenas fingia até se sentir cansado de fingir. O que teria destruído nosso herói? Talvez tivesse sido a professora Lúcia que gritava com ele toda vez que ele "não se comportava", ou talvez sido sua mãe quando encontrou seus desenhos de princesas guerreiras e o reprimiu dizendo que não era algo que um menino deveria estar fazendo, talvez tivesse sido os seus irmãos que faziam comentários desagradáveis sobre as namoradinhas que esse deveria ter, talvez tivesse sido todos ao mesmo tempo, ou talvez tivesse sido o próprio Pedro que se permitiu acreditar que deveria deixar de ser, deveria ser adulto, seja lá o que isso quer dizer, deveria parar de ver o que mundo pode ser e enxergar apenas o que esta lá. Mas não importa quem foi o culpado, o resultado é que Pedro não sabia mais brincar, esqueceu como imaginar. Era o fim, não sobrou nada além de poeira sob os antigos desenhos de mundos mágicos ou dos brinquedos improvisados. De repente, era o fim. Crianças são crianças porque brincam, Pedro não brincava, Pedro não era mais criança.
João Vitor Rodrigues
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