Pular para o conteúdo principal

"Mas isso não é Pedro Páramo?” - Socorro Acioli e o Realismo Mágico brasileiro

 

Quando eu encontrei o livro A Cabeça de Santo, vagando pelos recomendados da Amazon, eu me apaixonei logo de cara. Nem terminei de ler a sinopse e ele já estava no carrinho. Adorei a ideia de um realismo mágico no estilo brasileiro com um protagonista sem pai e que escutava a reza de mulheres aflitas dentro de uma cabeça gigante de Santo Antônio. Entretanto, toda vez que eu comentava sobre minha próxima leitura com algum amigo escutava um: “Uai, mas isso é uma cópia de Pedro Páramo!” e logo eu ficava com aquela cara de quem acabara de saber que na verdade seu ouro era cascalho. Até porque Pedro Páramo é um clássico da literatura latino-americana, era um dos favoritos do García Marquez e dizem por aí que a obra de Rulfo abriu os caminhos para o Realismo Mágico e para a geração do Boom de 1960. A Socorro Acioli não fica para trás, depois de A Cabeça do Santo se tornou uma premiada escritora, mas de literatura infanto juvenil, e acaba de tirar do forno seu segundo romance Oração para Desaparecer.  

Capas das respectivas obras discutidas nesta coluna


Sendo assim dá para entender porque fiquei encucada né? Fui lá e li A Cabeça do Santo e nas primeiras páginas falei: “Realmente é uma cópia de Pedro Páramo, brasileiro não sabe fazer realismo mágico, meu amigo bem tá certo.”, ainda mais que A Cabeça do Santo era dedicada à García Marquez, isso porque a sua ideia foi desenvolvida na versão da oficina “Como Contar un Cuento” do autor, ministrada no México no iniciozinho dos anos 2010. Além disso, a premissa era a mesma né, um filho pobre perdido que depois da morte da mãe vai atrás do pai cobrar as dores do abandono. Eu acreditei estar lendo o mesmo livro mais ou menos até a metade, que foi quando Socorro Acioli conseguiu me unir aos personagens, mas até então eu não tinha lido Pedro Páramo então como poderia saber? Agora, depois de terminar os dois romances, posso dizer com absoluta certeza que A Cabeça do Santo NÃO É UMA CÓPIA de Pedro Páramo, pode ser inspiração? É claro que sim! Mas a verdade é que essa dinâmica da casa pequena/casa grande, filho abandonado/vingança já se tornou tão latinoamericana que talvez Socorro nem precisasse ter feito a oficina literária de García Márquez para escrever A Cabeça do Santo tal como escreveu. 

Isso é uma mera opinião, mas vou tentar mostrar para vocês porque eu acho isso. Os dois romances têm os seguintes pontos de contato e distanciamento: 1. Filho abandonado que busca pelo pai; 2. “Pueblo” fantasma; 3. Ortografia coloquial; 4. Estilo narrativo; 5. Vilão da história. Na minha cabeça esses pontos se misturam, e ao mesmo tempo que promovem distanciamento promovem certo contato sobre as obras.

  1. Filho Abandonado

Em ambos romances logos nas primeiras páginas descobrimos que os protagonistas estão saindo de centros em direção ao interior em busca de seus pais. A diferença é que Juan Preciado vai à Comala no interior de uma comarca mexicana e Samuel vai à Candeia, no interior do Ceará. Comala e Candeia são palavras parecidas, né?  😂😂😂


  1. “Pueblo” fantasma

Ao chegar em Candeia Samuel dá de cara com uma cidadezinha às moscas, sabe aquelas vilas de interior que a gente passa quando tá no caminho pra outra cidade? Assim era Candeia, só que pior, ao longo da narrativa Samuel mostra pra gente como aquele lugar tá morto, sem comércio, sem gente, nada além de uma bodega, até a Igreja da cidade tá fechada. Quando Juan Preciado vai chegando em Comala logo informa ao leitor que não era aquilo que ele esperava, sua mãe descrevia o pueblo com beleza e fartura, mas Preciado custou achar quem lhe acolhesse ali, Comala já não era nada. 



Representação de Comala como na obra em pintura à óleo, autor desconhecido.


3. Ortografia Coloquial 

Ambas histórias se passam em cidadezinhas do interior, e dado a este fator buscam empregar coloquialidades da região à qual pertencem. Gosto de destacar esse ponto pois Rulfo fazer isso em Pedro Páramo tem um quê de revolucionário, uma vez que a linguagem é um ponto central para se conhecer uma comunidade/cultura. Socorro Acioli faz a mesma coisa e A Cabeça do Santo e sem dar aquele tom pejorativo que muitas vezes sentimos quando se diz sobre a fala de um cearense.


  1. Estilo Narrativo

Acredito que esse seja o principal ponto que distancia essas obras e faz cada uma ser ela própria. Ao escrever Acioli opta por uma narrativa linear com início, meio e fim (tudo meio corrido, por sinal - na minha humilde opinião) com apenas um narrador, o próprio Samuel. Já Rulfo, quebrando novamente com os padrões da década de 40-50 da literatura latino-americana, opta por uma narrativa não linear com diferentes narradores, fazendo de Pedro Páramo um pequeno quebra cabeças (talvez uma inspiração para O Jogo da Amarelinha?). Essas opções de narração fazem com que A Cabeça do Santo conte a história de Samuel em Candeia, já Pedro Páramo conte a história de Comala e Pedro Páramo é mais um personagem entre tantos outros. 


ALERTA DE SPOILER 


  1. Vilão da História 

Esse é um ponto de distanciamento justamente porque as histórias se passam em épocas distintas, não que cada autor diga qual é cada uma, mas fica claro para o leitor que A Cabeça do Santo se passa no Ceará em meados de 1970/80, e que Pedro Páramo está falando de uma sociedade mexicana no início do século XX. E principalmente o tempo em que foram escritos contam para isso, Rulfo escreve sua obra em meados do século XX, dessa forma me pergunto: “Quais eram as questões que rodeavam a cabeça desse autor e o levaram a escrever a obra tal como é?”, lembrando também que ela é uma espécie de encomenda do selo editorial nacional mexicano. Coloco todas essas questões para falar da organicidade social que esse livro expõe, Juan Preciado jamais encontra seu pai ou queima a sua vingança, ali naquele momento as coisas só são porque são. Tem exposição da violência governamental nas duas obras, pobreza, milícias, e tudo mais encontramos nas duas obras, mas em Pedro Páramo essas coisas só acontecem, só são. Já em A Cabeça do Santo tudo tem um porquê, tanto que o livro tem um final “fechadinho” e Samuel até mesmo perdoa o pai de alguma forma. E nessa história o vilão nada mais nada menos é o capitalismo, já que a ideia final era matar a cidade para vender o terreno para uma Indústria. Talvez o vilão em Pedro Páramo também seja a sede de poder e o capitalismo, mas esse não é o interesse da obra, assim como não é o interesse de A Cabeça do Santo, mas devido ao seu estilo narrativo foi necessário dar forma a esse vilão. 


Foto da cabeça de Santo Antônio em Caridade-CE, 2011. Para saber mais sobre acesse:Estátua de Santo Antônio 'espera' cabeça há 35 anos no alto de um monte em Caridade, no Ceará | Ceará | G1 (globo.com) 

 

A “lição” que fica pra mim, e pra quem mais acredita que não dá pra fazer realismo mágico no Brasil é uma torta na cara porque dá sim, e dá muito. Socorro Acioli se inspirou numa cabeça de santo aqui da nossa realidade. O caso da cabeça que não subiu o morro aconteceu em Caridade, uma cidadezinha no interior do Ceará, e ainda que a opção por uma narrativa “fechadinha” possa ser considerada mais pobre, a verdade para mim é que a forma como Acioli constrói o mágico romance em torno da realidade compensa algumas questões em estrutura que me incomodam. A Cabeça do Santo é primorosa, é uma história de se ler com gosto.

Segundo meu amigo Juan Rulfo é necessário que se leia Pedro Páramo no mínimo três vezes para que se possa compreender a obra. Essa coluna está sendo escrita após minha primeira leitura da obra e tudo que estou discutindo aí em cima pode ser apenas baboseira. Apesar disso gostaria de conversar com vocês essas ideias e quem sabe sobre outros livros mais, talvez com menos fantasmas (esses eu quase não falei sobre que é pra vocês descobrirem sozinhos). Enfim, espero que gostem de ambas as obras, porque elas valem a pena!


Livros usados para análise:

  • Pedro Páramo - Juan Rulfo
  • A Cabeça do Santo - Socorro Ocioli

Virginnya Faltz

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Deixe-me dançar como o rio

“Desde o dia em que eu te reencontrei Me lembrei daquele lindo lugar Que na minha infância era especial para mim Quero saber se comigo você quer vir dançar Se me der a mão, eu te levarei Por um caminho cheio de sombras e de luz” O céu e a terra. O sagrado e o profano. A mente e o corpo. O novo e o velho. O fantasioso e o real. A criança e o adulto. Separar as coisas parece ser a maneira mais fácil de lidar com o mundo. Ser mais objetivo. Técnico. Direto. Dividido. Encaixotado. Formal. Preso. Como se tudo precisasse ser colocado em uma gaveta de documentos e entregue da maneira mais correta e palpável possível. Tem que ser exato. Tem que fazer sentido. É preciso que seja real de imediato. É do encontro entre dois seres que uma criança é gestada. É antes de tudo um ato de união. Ao nascer existe a necessidade biológica e orgânica de separação física do corpo da mãe. É por uma necessidade de conexão. Rompe-se com a mãe  para que se conecte ao mundo. É preciso interagir. É ruptura Mas ...

Pedro, como é brincar mesmo?

Crianças brincam, assim como pássaros cantam, crianças brincam, é natural, crianças brincam porque são crianças. Pedro era uma criança e por isso brincava, de muita coisa: Jogava futebol, brincava de esconde esconde, pique bandeira, dirigia o carrinho de rolimã dos seus irmãos mais velhos que tinha uma das rodas meio torta e fazia todo o corpo de Pedro tremer. Porém, o que Pedro mais gostava de fazer era criar universos inteiros na sua cabeça, além do real, se posiciona no meio do campo de futebol em um dia de tempestade e se tornava um senhor do tempo que controlava os ventos e as chuvas com o movimento de seus braços, nos corredores da escola, se tornava um fugitivo intergaláctico dentro de uma nave espacial. Pedro era mágico, assim como toda criança é. Ele olhava para além do que estava lá, ele olhava para o que poderia ser, criava a partir de pouco, era um cientista, um alquimista, tudo isso sem nem tentar ser.  Um dia ele foi um cavaleiro, como nos filmes, sua armad...

O Banquete de Babette - o jantar que nutre a vida e alimenta as perspectivas

Consideradas uma das mais belíssimas adaptações do cinema, o filme dinamarquês O Banquete de Babette (nome original: Babettes gæstebud), dirigido por Gabriel Axel e co-escrito por ele e pela escritora Karen Blixen também responsável pelo livro que serve como material base para a elaboração do projeto, é muito lembrado por ter sido o primeiro filme de seu país a conquistar o prêmio mais prestigiado da sétima arte - o Oscar. Ainda sim, ganhar o Oscar de Melhor filme estrangeiro no ano de 1978 foi somente a cereja do bolo dentre os vários prêmios que o longa havia ganhado em diversas categorias em outros festivais ao redor do mundo, principalmente no BAFTA. Ou seja, dentro da academia a recepção da obra é exímia, recriando ou popularizando ali um sub gênero de filme gastronômico, e é exatamente nesse ponto de discussão em que a obra vai ser mais lembrada, principalmente no que diz respeito a essa resenha crítica. O longa parece ganhar mais seu espaço entre os amantes da arte do cozinhar ...