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Nomadland e as Construções dos Espaços


    As empresas ou indústrias carregam consigo uma grande atração populacional, são responsáveis por inúmeros êxodos migratórios de trabalhadores em busca de uma melhor condição de vida. Em contrapartida, a empresa enxerga nesses trabalhadores a famosa “mão de obra barata”. Com o passar do tempo e com o grande fluxo, é construído, gradualmente, uma espécie de cidade em torno da fábrica, ainda que não seja de extensa população, a limitação territorial cresce, até novos tipos de comércio podem ser criados por outros membros familiares. Os trabalhadores também se veem numa espécie de looping rotineiro, repetição de ações, trabalho para pagar as contas e talvez viajar em algum momento do ano. Apesar de não parecer muito proveitoso, os moradores que constroem suas vidas no local acabam criando uma certa relação de pertencimento, ainda mais aqueles que foram criados e cresceram ali. Então é concebido uma certa dependência entre a empresa e trabalhador, se a empresa quebrar, a cidade consequentemente quebra também, principalmente aquelas que não se desenvolveram tanto a ponto de conseguir se desgrudar dessa dependência econômica. Dentro desse contexto é que encontramos a protagonista do filme Nomadland. Fern (interpretada brilhantemente pela atriz Frances Mcdormand), uma mulher de 60 anos, que após a Grande Recessão que atinge uma cidade rural aos moldes “cidade indústria", perde tudo e enxerga na vida nômade em uma van a oportunidade de construir uma nova relação de significados, além dos “muros” urbanos. Um filme que abre várias discussões a respeito de lugar, paisagem e uma série de outras categorias da geografia e que vale a pena ser ressaltado.
    Em primeiro plano, é importante destacar a forma com a qual a diretora (Chloe Zhao) conduz o filme, enaltecendo a jornada de Fern em um claro contraste a vida urbana e sedentária antes vivida pela protagonista. Em vários momentos durante a rodagem do filme a diretora tem uma decisão formalística mais contemplativa e reflexiva no cotidiano da personagem, acentuando com imagens deslumbrantes desse lado um pouco esquecido dos Estados Unidos, ou até mesmo tratado de forma suja por outras obras. Ao decorrer do longa, Fern tenta fugir do passado e encontrar novos significados e sentido para a vida, assim a diretora com esses momentos reflexivos expressa de forma ímpar essas passagens, além de mostrar Fern numa espécie de ponte entre a solidão/solitude. Porém, a personagem parece sentir nada mais que a liberdade de se ver desgrudada de uma dependência e de uma monotonia já vivida em outro momento na “cidade indústria". Agora Fern é livre, e a solidão agora parece mais aconchegante e sendo representada como uma vasta possibilidade para a protagonista. O que antes era um espaço territorial limitado pela cidade e pelo cotidiano (ressalva algumas exceções), agora ela se contempla com um vasto espaço que antes não era sequer vislumbrado. Não mais dependente da empresa, mas sim de suas escolhas, seus limites territoriais não existem mais, e seu lugar agora é ressignificado junto com essa liberdade, o mundo se transforma no seu quintal. Uma jornada que antes parecia perigosa e fora da caixa para muitos, agora é acolhedora e libertadora.


    Ainda acentuando a formalização do filme, existe uma cena em especial que denota com maestria essa relação passado x presente e urbano x não urbano. Com o passar da película Fern viaja por muitos lugares e conhece muitas pessoas, e que vai nos apresentando mais a respeito da personagem. Porém, em algum momento ela teria que revisitar seu passado, seu lugar de origem para a jornada. É aí que a diretora escolhe maneiras de fazer isso de forma densa e tenebrosa, por assim dizer, ela visita a fábrica onde trabalhava (agora sem funcionar, suja). Com uma fotografia fria e até um pouco claustrofóbica, Fern percebe que ela fez bem sua escolha de deixar aquele espaço limitante e sufocante para quem já experimentou muito mais.



    Além disso, é  válido ressaltar um grande exemplo de relação de interioridade no filme, principalmente ao colocar a personagem de Fern se encontrando com outras pessoas que estão em barcos parecidos com o dela. Apesar do nomadismo moderno, eles se reúnem em alguns pontos para trocar ideias, conhecimento e acima vivências, ou motivos pelos quais decidiram se aventurar dessa maneira. Muitos são parecidos com Fern e outros nem tanto, porém a crise imobiliária os une, onde interiormente eles se completam, são ouvidos, além de agora viverem uma vida parecida nos automóveis, as experiências certamente são tudo menos monótonas. Interessante complementar que a diretora e roteirista Chloe Zhao decide ter uma decisão criativa bem arriscada, porém se feito do jeito certo agrega bastante a história, ela escolhe deixar a atriz Frances Mcdormand interagir com não atores, e sim pessoas que realmente são os nômades modernos, deixando a narrativa mais emocionante palpável. O filme então acaba passando por uma dupla identidade, onde se apresenta como ficção e ao mesmo tempo um documentário.


   
 Assim, sem grandes orçamentos na produção ou um grande elenco, além da atriz principal, o filme esbanja precisão ao discutir as consequências de uma das crises do capitalismo de forma minimalista, porém poética e bela. Ao  conseguir transmitir através da forma como filma a sua protagonista o peso do passado e a leveza de um presente libertador. Além de trabalhar dois espaços de forma ímpar na busca por uma identidade da personagem, na busca por um novo sentido na vida. Um filme reconhecido e premiado em muitos festivais, entre eles o de Melhor filme, diretor e atriz no Oscar. Um longa que atinge um grande alcance, porém que conta a história não só de um espaço esquecido como as cidades fantasma das indústrias, mas também de seus moradores.
    
Link do filme: Nomadland | Trailer legendado | Em breve nos cinemas
Disponível na plataforma do Now e do TeleCine.


Tauan Rodrigues Guimarães


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